16Julho
2010

“Joguei fora um quilo de laranjas”

Marisa Gabbardo
  

“Joguei fora um quilo de laranjas.”

 “Ué, por quê?”, perguntou outra pessoa.

“Porque na feira das sextas vem um quilo do alimento por um real (qualquer alimento da época), mas é muito, porque eu sou sozinha. Daí sempre sobra, e eu acabo jogando fora”.
Ouvi este diálogo entre duas vendedoras quando estava olhando alguns produtos numa loja.

Quando saí de lá, este diálogo ficou me perseguindo por várias quadras. Enquanto eu caminhava, os pensamentos que invadiam minha mente não me deixavam descansar.

Perguntava-me porque uma vendedora de loja (daquela loja, no caso), que não deve receber mais do que mil reais ao mês de salário desperdiçaria quilos e quilos de alimento, jogando-os no lixo, ao longo dos anos. 

Não a título de julgamento, mas de exercício de pensar (pois nem seu nome sei, nem  lembro seu rosto), perguntei-me quanto por cento de seu salário já havia ido parar na lixeira junto com seus quilos de alimento, e porque ela não conseguia fazer as coisas de forma diferente.

Meu raciocínio foi em direção a vários questionamentos: por que ela não fez suco com as laranjas e tomou? Era vitamina C pura! Por que não congelou o suco, se não queria tomá-lo na hora? Por que não deu outro fim ao seu dinheiro, ou às laranjas, e não a lixeira?

Por que jogou fora seu dinheiro, assim sem titubear? Bem, não sei maiores detalhes da vida dessa moça além do que escutei, mas não preciso ouvir maiores informações para imaginar que ela não administre bem seu salário se proceder com o mesmo raciocínio que teve em relação às laranjas em outros setores: quem sabe também não faça as contas de quanto em cigarro gaste ao mês, caso fume (e menos ainda se vale a pena gastar em cigarros!), ou em combustível, ou em alimentos e roupas. Será que ela tem uma boa calculadora interna para somar quanto gasta ao mês e ao ano em determinados itens, e porque nunca conseguiu quem sabe sair do aluguel em 40 anos de vida? Ou porque não sobra dinheiro para viajar, ou guardar, ou simplesmente sobrar e depois ver o que fazer com ele?

Não é preciso ir muito longe para concluir aquilo que sempre falamos, que provavelmente tenha lhe faltado educação financeira na infância (depois também!), de que provavelmente não lhe tenham ensinado a entender o desperdício como desnecessário. Que sabendo fazer alguns cálculos simples, ficando ligados nas informações que ouvimos aqui e ali, as pessoas fazem melhor aproveitamentos de todos os seus recursos, dentre eles o dinheiro?

Essa vendedora e suas colegas poderiam até combinar de cada uma comprar um produto e trocarem entre si parte do adquirido, não ficando nenhuma com quota excedente de laranjas e afins para serem desperdiçadas.

Unir-se em busca de um bem estar comum também é inteligência, neste caso, inteligência financeira. E inteligência financeira também consiste em se trabalhar bem com qualquer quantia, seja ela 1 real ou 1 milhão de reais.

 


Marisa Gabbardo, Psicóloga.

Colaboradora da Mais Ativos Educação Financeira

www.maisativos.com.br

 





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